
Acostumado com a escala grandiosa de
tudo o que envolve Hollywood – enormes sucessos de bilheteria, cifras de
arrecadação altíssimas, superproduções, prazos e pressões, e bajulação
correspondente – o homenageado com o troféu Eduardo Abelin no 46º Festival de
Cinema de Gramado, Carlos Saldanha, passou tarde e noite de sábado ,
reafirmando a singularidade de receber um prêmio em seu país natal.
“Ah, que coisa boa isso
aqui”, exclamou ao chegar ao púlpito. “Fiz minha carreira praticamente lá fora,
então ganhar um prêmio no Brasil tem um gostinho muito especial”, agradeceu, no
palco do Palácio dos Festivais.
Ao longo da entrevista coletiva
que concedeu ainda durante a tarde, Saldanha deixou explícito o desejo
constante de reforçar os laços com o Brasil. Vivendo em Nova Iorque há 25 anos
(ele foi para passar três meses, estendeu o prazo para dois anos e logo foi
contratado pelo Blue Sky Studios), está constantemente pensando projetos que o
aproximem da terra natal. A primeira brecha veio na esteira do sucesso de “A
Era do Gelo” (2002), que codirigiu ao lado de Chris Wedge.
Aproveitando o bom momento,
propôs um projeto com a cara do Brasil para o estúdio Fox. “Eu disse: no Brasil
tem música, cor, tudo o que é preciso para uma boa animação”, lembra. Era o
embrião do sucesso internacional “Rio” (2011), que, entretanto, ainda teve que
esperar antes de sair do papel. “Eles toparam, mas disseram que antes
precisaria fazer A Era do Gelo 2 e 3”, revelou.
Assim foi, e com as
sequências do filme original, Saldanha ganhou ainda mais prestígio, pois
assumiu a condução completa do projeto, que foi sucesso internacional de
bilheteria, arrecadando quase um bilhão de dólares ao redor do mundo.
Chegou, então, a vez de
“Rio”, e ele fez questão de ambientar toda a equipe no Brasil para contar a
história de Blue, um pássaro nativo que deixou o país muito cedo e precisa
voltar. “Fizemos todo o percurso do Blue juntos, saímos dos Estados Unidos e
viemos”, recorda. Na capital fluminense, onde Saldanha nasceu, a equipe se
aventurou da mesma forma que Blue, na telona. “Fizemos aula de samba para
conseguir animar os personagens, saltamos de asa delta – mesmo contra a vontade
do estúdio, que não queria se encarregar do seguro”, revela.
Recentemente também decidiu
se aventurar pela ficção live action (ou seja, com atores de carne e osso e não
desenhos animados) em um projeto que, uma vez mais, mirou a pátria distante. “Cidades
Invisíveis”, série de oito episódios feita para a Netflix tem como fundo
temático o folclore brasileiro. “Estou muito feliz, pois é uma produção 100%
brasileira, com roteiristas, atores, toda a equipe daqui”, celebra.
Ele também revela ter planos
de produzir mais animação. “Sempre temos dois projetos andando juntos, para ver
qual o que se confirma. No momento, estou trabalhando em uma história original
própria e em uma sequência. Vamos ver qual será a vitoriosa”, provoca.